sexta-feira, 21 de maio de 2010

Como andar bicicleta dentro de casa

Como já sabem, semana passada estive no GP de Mônaco. Tendo em vista minha ociosidade nesses últimos dias, decidi compartilhar mais da corrida e da história do evento. Mais do que me gabar com fotos com pilotos e carros, quero mostrar um pouco do mito que é “O Grande Prêmio de Mônaco”.

Primeiro, comecemos pelo país. Mônaco é o segundo menor país do mundo, uma cidade-estado, atrás (ou à frente) apenas do Vaticano. É uma monarquia constitucional e um principado, quer dizer que o manda-chuva é um príncipe, hoje em dia é o Albert I, um careca com cara de almofadinha. Fica encrustado no sudeste da França e não cobra impostos de seus residentes, por isso mesmo, vários ricaços, inclusive pilotos, compram seus apartamentos de luxo por lá. Tem a bandeira igual à da Polônia de cabeça para baixo, uma faixa vermelha e outra branca. Fim do Telecurso 2000 de geografia, vamos ao que interessa.

O GP de Mônaco é o mais prestigiado e histórico do calendário da Fórmula 1. Junto com as 500 milhas de Indianápolis e as 24 horas de Le Mans forma a tríplice coroa do esporte a motor. A primeira corrida foi disputada em 1929. O circuito é muito estreito, quase sem retas, com vários pontos perigosos e, por ser um circuito de rua, repleto de elementos surpresa como sujeira, elevações, bueiros, bocas de lobo, desníveis e faixas de trânsito e de pedestres que dificultam ainda mais a condução dos carros, sobretudo em dias de chuva. Por essas e outras razões, o tri-campeão Nélson Piquet disse que “correr em Mônaco é como andar de bicicleta dentro de casa”.

De fato, o GP de Mônaco sempre foi marcado por diversos acidentes, alguns deles muito sérios.

Essa é a entrada do túnel, local do acidente que causou a morte do italiano Lorenzo Bandini em 67.

Quando ocupava a segunda posição, escapou com sua Ferrari, atingiu a proteção de PALHA e teve seu carro coberto pelo fogo. Mesmo com a ajuda do Príncipe, que participou pessoalmente do resgate, e dos bombeiros que conseguiram retirá-lo ainda com vida do carro em chamas, o piloto não resistiu e morreu horas depois no Hospital com queimaduras por 70% do corpo.

Esse também foi o local de outro acidente histórico, mas bem menos grave, felizmente. No GP de 88, Senna liderava com uma folga de quase um minuto sobre o segundo colocado, Alain Prost, a poucas voltas do fim quando tocou o guard rail no mesmo ponto que Bandini, deu adeus à corrida e a vitória de presente ao rival. Há quem diga que ele queria mesmo era colocar uma volta sobre o francês, o que seria uma humilhação para o companheiro de equipe e desafeto e a consagração para o brasileiro que já havia conquistado o principado no ano anterior pela Lotus e fazia a sua temporada de estreia na McLaren.


Fato é que ele ficou tão irritado com seu erro que foi direto par ao seu apartamento e não se ouviu falar dele até o dia seguinte. Aliás, não se pode falar de Mônaco sem falar de Senna. Ainda na sua primeira temporada na F1, Senna chamou a atenção de todos conduzindo a fraquíssima Toleman sob um temporal. Numa decisão meio confusa, a direção de prova optou por interromper a corrida dando a vitória a Prost. Senna ficou em segundo e conquistou seu primeiro pódio.


Senna venceria em 87, 89, 90, 91, 92 e 93, sendo aclamado “o rei de Mônaco”. Antes dele, Graham Hill havia faturado o GP 5 vezes.

Mas nada de saudosismo, o post é sobre Mônaco...

Outro acidente muito grave aconteceu aqui, logo depois do túnel, ponto de maior velocidade do circuito.

Em 94, nos treinos para a corrida seguinte à morte de Senna e Roland Ratzemberg, o austríaco Karl Wendlinger perdeu o controle da Sauber a 280km/h, varou a chicane e espatifou-se na proteção de pneus. O piloto ficou semanas em coma mas sobreviveu. Peter Sauber decidiu retirar da corrida seu outro piloto, Frentzen, alegando falta de segurança no circuito. Jura?!?


Nesse mesmo local, bem mais recentemente, em 2008, Kimi Raikkonen também perdeu o controle na freada e acabou com a corrida de Adrain Sutil, que rumava para marcar seus primeiros pontos e os da recém-ingressa Force India.


Um GP marcado por acidentes foi o de 1996, quando apenas quatro carros cruzaram a linha de chegada. Tendo largado em décimo quarto, o francês Olivier Panis conquistou a sua única vitória e a última da equipe também francesa Ligier, antes de ser vendida para Prost.


Outro ponto interessante da pista é a La Rascasse, palco de duas brigas entre Alonso e Schumacher. Eu não fazia ideia, mas essa curva tem esse nome graças a um bar/restaurante/boate que fica ali.

Foi nesse ponto que, durante os treinos de classificação para 2006, Schumacher, após marcar o melhor tempo, deliberadamente estacionou a Ferrari para evitar que Alonso, que vinha atrás dele com as duas melhores parciais da pista, tomasse a pole.


Nesse ano, outro capítulo. Após a lambança de Trulli sobre o pobre Chandok, quando o safety car retornou aos boxes, Schumacher ultrapassou Alonso na mesma Rascasse. Após alguma polêmica e considerações sobre as duas formas de avaliar o regulamento, o alemão foi punido com 20 segundos a mais sobre o tempo final.

Um outro acidente que ajudou a definir o término da corrida deste ano foi o de Barrichello. A bandeira amarela provocada pelo “pé de chinelo”, Barrica ou seja lá como queiram chamá-lo, pôs todos os pilotos mais uma vez juntos e deu mais emoção à corrida, pelo menos isso. Alegando um problema na suspensão, Rubinho escapou na Beau Rivage e, como ele mesmo disse em seu Twitter, deixou um “autógrafo” no muro. Na verdade, dois deles.


Mais ou menos no mesmo ponto, ainda no sábado pela manhã, Alonso perdeu o controle da Ferrari e destruiu o carro no muro. O estrago foi tanto que não foi possível fazer os reparos a tempo, tanto que o espanhol não participou da classificação e teve que largar dos boxes.


Outro acidente relativamente grave aconteceu em 87. Também no mesmo ponto, Durante os treinos Christian Danner da Zakspeed fechou a Ferrari de Michele Alboreto. O carro do italiano capotou, pegou fogo mas o piloto nada sofreu, já o alemão foi excluído da corrida. Justamente, convenhamos.


Como o assunto é acidentes e eu sei que a galera gosta de ver o osso, achei um vídeo bem instrutivo para exemplificar os perigos de andar em Mônaco.


Hoje, no entanto, os dispositivos de segurança, barreiras absorvedoras de impactos, “crash-tests” e todas as novas regras de segurança tornaram os GP’s bem menos perigosos. Eu separei alguns vídeos que mostram a (falta de) segurança dos velhos tempos. Antes de técnica, o piloto tinha que ter coragem. Em 1966 foi lançado o que talvez seja o melhor e mais fiel filme de Fórmula 1 de todos os tempos. Justamente pela precariedade das proteções e pela inovadora técnica de câmeras on-board, nós podemos ter uma boa noção do quão macho o piloto tinha que ser para domar aquelas máquinas, passando por trechos que mais pareciam ruas de uma cidade qualquer com pedestres nas calçadas e raspando no meio-fio.




Diz que não arrepia!!

Alguns desses carros ainda estão "vivos” e participam de competições. Uma delas acontece anualmente também em Mônaco e misturam modelos de várias épocas. E nem pense que os pilotos aliviam.


Então, minha euforia em estar lá não se justifica?!?


terça-feira, 18 de maio de 2010

GP de Mônaco. Dizem que eu estive lá, ainda não acredito!



Do dia 13 ao 16 de Maio várias coisas aconteceram no mundo. Atentados, assinatura de tratados, nascimentos, mortes, alguma loira inútil deve ter aparecido em algum lugar com um vestido mínimo, um playboy deve ter se metido em brigas, uma loira/morena/ruiva deve ter assinado com uma revista masculina, um ator/modelo/ex-BBB deve ter “atacado de DJ” e por isso apareceu na coluna laranja do globo.com, algum técnico deve ter sido demitido, 90% do Brasil deve ter continuado a xingar o Dunga ou a pobre mãe dele e algum esquema de corrupção deve ter sido descoberto, ou seja, mais um fim de semana normal. Não para mim. Garanto que não teve pinto em merda mais feliz que eu nesses dias, EU FUI PARA O GRANDE PRÊMIO DE MÔNACO! Pelo menos é nisso que eu estou tentando acreditar até agora.

Eu poderia contar a história do meu último final de semana de várias formas. Poderia descrever simplesmente em ordem cronológica os eventos desses últimos dias, começando ainda muito antes, no início do ano, quando os ingressos foram postos à venda no site da fórmula 1 e comecei a programar a viagem; explicar como o metrô foi cancelado e tivemos que sacrificar 50 euros num taxi para a estação às 6 da manhã e chegar 5 minutos antes do TGV sair (trem bala francês); falar da americana porra-loca que sentou ao meu lado no trem e que carregava dois chihuahuas na bolsa enquanto desenhava a paisagem com lápis de cor e uma borracha elétrica, juro que era elétrica!; passar pela descrição do albergue e das duas anciãs que tomavam conta da bagunça e passaram cinco dias com a mesma roupa; da convenção de brasileiros que se encontravam a cada esquina por acaso; da Odisseia de ir de Nice a Mônaco de bike parando a cada dez minutos para esperar o Master; dos carões que levamos de policiais monegascos pelos mais diferentes motivos como andar sem camisa, farofar nos jardins, pich... escrever frases de apoio ao Massa no guard rail ao lado de da sua posição de largada ou subir 600 metros durante 5 km de uma rodovia internacional de bicicleta recebendo incentivo das pessoas dentro dos carros parados no engarrafamento e buzinadas dos que passavam “tirando finos” nos nossos pedais até sermos parados pelo carro de fiscalização da rodovia enquanto cruzávamos quatro faixas por onde passavam Ferraris, Porsches, Mercedes e Lotus assim como Fiats, Renaults e Peugeots a mais de 100, 200 ou sabe-se lá quantos km/h e recebermos mais uns carões e uma carona. Confuso? Leia outra vez que você vai entender!

Poderia descrever como encontrei os pilotos, mecânicos e chefes de equipe no circuito; como perambulei pelas curvas procurando a cada curva por pedaços de carro para trazer como lembrança; enumerar os diversos motivos que me fizeram odiar os FDP’s da FIA que nos venderam ingressos para um barranco prestes a desmoronar com uma gaivota em decomposição ao meu lado; etc, etc...

Mas nada disso poderia explicar o que realmente senti naqueles dias. Na verdade, nem eu mesmo sei. Antes que alguem me chame de fútil ou desocupado por gastar suor, tempo e dinheiro para ver carros fazendo vruuum , vruuum, vruuum e contribuindo para o aumento do efeito estufa por horas e horas, quero dizer que, como dizia o meu amigo e sábio poeta nas horas vagas André Kaiser Lins, gosto é como c*, cada um tem o seu e se quiserem frescar com o meu, eu fico puto. Gosto sim de Fórmula 1, curto mesmo, acordo cedo ou durmo tarde para ver as corridas ou mesmo os treinos desde pequeno. Um dos motivos pelos quais eu odiava fazer eucaristia era por ter que passar as manhãs de domingo longe da TV, ainda bem que a temporada de 97 não foi lá tão emocionante. Sei o nome, nacionalidade, um pouco da história de cada piloto. Conheço as cores de cada equipe, e me atualizo sempre a respeito das novidades, notícias, etc...

Não sei ao certo como isso aconteceu, mas algumas das minhas primeiras lembranças são relacionadas com a F1. Talvez a minha lembrança mais antiga seja de um domingo quando estávamos numa casa na cidade satélite, em Natal que não era a minha, minha família (na época pai, mãe e eu) e alguns amigos assistindo ao GP. Era um dia de chuva e todos torciam para um carro branco e vermelho que corria muito rápido numa pista estreita e rodeada por muros por toda parte. Eu não entendia direito o que acontecia, mas de alguma forma, aquilo chamou minha atenção. A partir de então, a F1 passou a ser uma rotina. Muitas vezes meu pai fazia churrasco com o vizinho enquanto assistíamos aos GP’s, eu pegava os cascos e ia comprar cerveja na esquina o mais rápido possível para não perder um lance. Depois da corrida eu fazia circuitos de terra no quintal de brincava com meus amigos de corrida, podia ser a pé, com carrinhos de plástico ou tampinhas de garrafa. Decorávamos os nomes dos pilotos e encenávamos os acidentes, apostávamos corridas até o campinho e quem chegasse por último, pior que mulher do padre, seria um japonês roda presa, os primeiros geralmente escolhiam ser o Senna ou um tal de “Xumaque” que começava a ganhar umas corridas, mas ninguém queria ser Prost ou Mansell. Ainda lembro muito bem da conversa do meu pai com meu tio no dia primeiro de Maio de 1994 e prefiro não falar sobre isso, mas à partir de então, sempre esperei por alguem que pudesse carregar a nossa bandeira e servir como exemplo para tanta gente.

O tempo passou e assim como educação e juízo, meu pai, talvez sem querer, também me ensinou a gostar das corridas. O problema é que eu passei a gostar mais do que ele, como nos dias que terminava o almoço mais cedo e ia correndo para casa assistir às provas, fossem elas de F1, Fórmula Indy/Mundial, Stock car, Fórmula Truck ou mesmo Moto velocidade ou Motonáutica.

Talvez assim vocês entendam um pouco o motivo da minha euforia e possam imaginar um pouco o que eu senti nesses últimos dias.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Para não passar em branco


Corintianos, Libertadores agora só no Playstation!



quarta-feira, 5 de maio de 2010

De volta ao esporte nacional

O meu Flamengo chegou aos trancos e barrancos às oitavas da libertadores. Por sua própria incompetência quase fica no meio do caminho e ainda teve que amargar a colher de chá do segundo tri-vice no carioca. Mudança radical no comando técnico para variar, vão-se os anéis, ficam os dedos. Hoje à noite, pegamos pelo segundo jogo das oitavas, o melhor primeiro colocado da fase de grupos, Corinthians.
Analises táticas à parte, deixo a discussão do que seria realmente importante para as conversas de botequim e me alegro muito mais com as provocações da torcida no jogo no maraca...










Vai mecher com a maior do mundo...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Grandes passos no desenvolvimento de um homem

Alguns eventos marcam nossas vidas. De cara, muitos podem citar a formatura, casamento, perda de alguem importante, primeiro emprego, etc, porém, a maior parte dessas mudanças, e talvez as mais drásticas, acontecem durante a infância. Não falo, contudo, dos clichês tão comuns em propagandas de TV ou filmes, como primeiro beijo, aprender a ler, primeira namorada ou aprender a falar, refiro-me a aqueles momentos que realmente nos fizeram evoluir e formaram nosso caráter, moldaram nossas personalidades e fizeram de nós esses seres (nem sempre) sociáveis que perambulam entre as vidas de uns e de outros até o fim de nossos dias.

Enquanto novatos nesse mundo, não percebemos o trauma que alguns eventos têm em nossas vidas. Às vezes, nem mesmo temos consciência para lembrar dessas passagens, mas seus efeitos podem ser sentidos pelo resto de nossas vidas, pelo menos foi o que Freud disse.

Alguns são mais marcantes que outros, mas aposto que todos da minha geração, que deram o ar da graça nos últimos suspiros da década perdida, passaram por pelo menos metade desses eventos e mesmo lembram-se de alguns deles. “Tô certo ou tô errado?”.

Certamente, o mundo não mudou por causa disso, mas nós sim.



Ser negado colo e ter que andar por si só dali para frente.

Talvez você não se lembre desse dia, mas as costas da sua mãe agradecem. Dessa data em diante, você estaria em contato direto com o mundo, daria seus próprios passos. Claro que depois de uma topada ou durante uma manha, um colinho ou outro ainda surja, mas não por muito tempo.

Diferenciar os chinelos do pé esquerdo e direito.

Isso ajuda muito naquela história de dar seus próprios passos, etc...

Descobrir que, ao contrário dos sapatos, meias não têm diferenças entre pés.

Talvez um dos primeiros paradigmas com o qual você se deparou. Pé – meia – sapato. Pé: diferenciável; meia: ??; sapato: diferenciável. Logo, meia: diferenciável. FALSO!!

Aprender a amarrar seus próprios sapatos.

Já nó de gravata tem que esperar mais algum tempo ...

Descobrir que chicletes não devem ser engolidos.

Não tente entender os “gente-grande”, fazer algo tão bom, tão macio que não pode ser engolido!?!? O que é isso?

Pasta de dente também não.

Mais uma tentação, se for pasta Tandy então... Eu gostava mais do coelhinho, de morango, naquela embalagem que parecia um pote, que tinha um gatilho no topo, se bem que a azul com estrelinhas também era legal.

Aprender a controlar a TV.

Ah, daí então, a vida não seria mais a mesma. Sessão da tarde, Cinema em casa, TV Colosso, Glub-Glub, Rá-Tim-Bum, Castelo Rá-Tim-Bum, X-Tudo, o Mundo de Beackman, TV Cruj e claro, Chaves e Chapolin. Tente imaginar quanta cultura você ganhou graças a TV.

Conseguir escalar o muro de casa.

O mundo é maior do que essas paredes. Sim, meu caro, ninguém poderá te deter.

Ter o aval dos pais para atravessar a rua sozinho.

Ah, o cruel mundo além rua. Precisar de um adulto para brincar na casa de seus amigos, jogar bola ou mesmo comprar chocolate? Não mais. Você tem o diploma de travessia de ruas, sabe que tem que olhar para os dois lados e, o mais importante, não passar caso um carro venha. Certo que tudo fica mais fácil com um semáforo, farol, sinal, o que seja.

Tomar conta de sua própria higiene após usar o banheiro (limpar a própria bunda).

Chega de: “Mãe, terminei!”

Conseguir falar MADRUGADA.

Essa foi a minha última palavra a ser dita corretamente. Olha para essas sílabas, fala sério. Muito difícil!

Aprender a abrir um pote de iogurte sem derramar.

Ás vezes acho que eles fazem de propósito. Você vem cheio de vontade de tomar aquele Chambinho ou Ninho Soleil, vai com tanta sede ao pote (literalmente) que: splash! Metade fica na camisa ou no chão. É o jeito ter que passar o dedo e aproveitar as migalhinhas.

Não poder mais andar na cadeirinha do carrinho de supermercado.

Ah, eu adorava. Além de ficar quase ao mesmo nível dos adultos, você pode matar a saudade dos tempos de carrinho de bebê enquanto a mamãe coloca todas aquelas coisas gostosas ao seu alcance. Ainda dá para fazer o velho lobby para colocar um biscoito a mais, um Chambinho e claro, o bom e velho chocolate.

Conseguir dominar a arte do manejo de um garfo e uma faca chegando inclusive a cortar seu próprio bife.

Parecia impossível. Aqueles instrumentos pareciam indomáveis. Aposto que você pensou que nunca deixaria de usar a colherzinha torta com uma carinha de urso gravada.

Entender como funciona um telefone e fazer a primeira ligação.

Um novo meio de comunicação ao seu alcance. Não tente entender como funciona, isso levará anos ou mesmo nunca saberá. Pense que é mágica se for mais fácil, mas de alguma forma, seus amigos, tios, primos estão logo ali.

Arrancar o primeiro dente.

Uma nova fronteira de dor e deformação facial acaba de ser revelada.

Aprender a assobiar.

Geralmente não acontece na mesma época da perda do dente, mas só em saber que você pode fazer sua própria música... Geralmente quem aprende a assobiar torna-se um viciado, o pivete sai praticando pela rua o dia todo, tortura para os ouvidos dos pais.

A primeira viagem.

Mal sabia eu.... mal sabia...

Ficar acordado após meia noite pela primeira vez.

Um mundo completamente diferente. Dizem que é nessas horas que os ladrões agem, é tudo tão quieto na cidade, apenas os cães latindo, exceto se for réveillon, aí não tem jeito, quando mudam o número do ano, todos ficam acordados soltando bombas, comendo, bebendo e se abraçando. Mas, se for natal, é melhor ir para a cama senão papai noel não vem. Como controlar a empolgação?

Ler a primeira Turma da Mônica.

Eu adorava a última historinha, na última página, três quadrinhos de piadas rápidas e inteligentes.

Convencer-se de que não existe nada embaixo da cama.

Para alguns isso pode levar alguns anos, ou mesmo ser um tabu entre seus amigos, ninguém confirma mas todos se cagam de medo do escuro. Depois de assistir “A volta dos mortos vivos” no cinema em casa então... UI!! Como pode alguém passar um filme daqueles às 2 da tarde? Traumático!

Aprender a cortar as próprias unhas.

Roer não vale! Nas primeiras tentativas você pode ter um pouco de sangue ou mesmo cantos de unhas doloridos, mas quando se descobre aqueles cortadores bem mais seguros e práticos... adeus tesourinhas!

Aprender a dar um Hadouken.

Meia-lua pra frente soco.” Ah! Os videogames. Street figther é O clássico. Não importa quem seja o seu personagem principal, saber dar um Hadouken é essencial para fazer frente a qualquer garoto da rua.

Dormir fora de casa pela primeira vez.

Poder dormir quando quisermos, assistir filme e jogar videogame na casa do amigo... Longe da asa da mamãe tudo parece mais legal, até que vem a dúvida se a cama do amigo também está livre de monstros assim como a sua.

Ganhar a confiança dos pais para ir comprar pão sozinho.

Isso requer também a consideração do padeiro. Não adianta chegar com o dinheiro se o tio te diz que você é muito moleque para fazer transações comerciais. Do outro lado, os pais. Primeiro eles começam com o pão, depois é algo de urgência, como um litro de leite que faltou durante um bolo, até que quando menos se espera seu pai já está chegando com quatro cascos de cerveja num domingo à tarde dizendo: “vai logo que o jogo já vai começar!”. E ai de você se estiver quente! Mas tudo bem, sempre rola um troquinho para financiar o sonho de valsa ou meia hora de street fighter ou top gear na locador.

Não ser o último escolhido no time de futebol pela primeira vez.

Ah, a vergonha de ser o último no futebol. Muitas vezes deixado de lado ou café com leite. Podendo até ser trocado por vantagens extra-jogo, “leva fulaninho mas agente começa com a bola”; “fica com fulaninho mas o gol na sombra é nosso”. Muitos até desistem da carreira por causa da vergonha. Eis que um dia chega alguem mais novo que você e enfim, redenção! Você não é tão ruim quanto diziam.

Aprender a utilizar uma chave de fenda, serrote, alicate, chave de boca.

Faça você mesmo! Máquinas de todas as funções tomam forma na sua mente, agora você pode até ajudar o pai a consertar o carro, mesmo que você não faça ideia do que está sob o capô, tem quase certeza de que umas batidinhas e apertadas de parafusos poderiam colocar a lata velha de volta às ruas.

Saber que uma chave de fenda, serrote, alicate, chave de boca, não devem ser usados como martelos.

Cada uma com sua função. Seus dedos agradecem!

Primeiros segundos sobre uma bicicleta sem rodinhas.

E se foi você mesmo quem tirou as rodinhas... nossa, quanta satisfação! Já estava na hora de tirar aquelas rodar de plástico. Todos os seus colegas com suas bikes super legais, dando até saltos perigosos, travando pneu e dominando os cavalos de pau no meio da rua. Sem as rodinhas, uma nova gama de manobras e curvas fechadas se abre. O sentimento de liberdade é tão grande que você nem se importa com os joelhos arrebentados e hematomas nas canelas.

Aprender a ver as horas em relógio analógico.

Enfim aquelas setinhas rodeadas de números fizeram sentido. O próximo passo é aprender que 14h é igual a 2 da tarde, 20h é 8 da noite e 18h é quando a tarde passa a ser noite.

Aprender a sequencia da macarena.

Isso é mais importante para as garotas, mas para um carinha querendo fazer média com as gatinhas, querendo ser dançarino, os passinhos e sequência de dobradas de braços é muito importante.

Escolher o seu power ranger.

O vermelho geralmente fica com o “cabeça” da turma, pode gerar um pouco de discussão também pois alguns podem ainda guardar a associação de que azul é cor de menino e rosa/vermelho é de menina. O Tommy, Jason, Brian e outros rangers vermelhos serviram para quebrar essa ideia.

Conseguir subir escadas de dois em dois degraus.

Muito útil nas brincadeiras de polícia e ladrão, era só correr para a escada mais próxima que ninguém pegaria. Quando a técnica é dominada por muitos, é hora de passar para o próximo nível... 3 degraus! Muitos dentes já foram sacrificados no desenvolvimento dessa técnica, mas dizem as lendas que é possível.

Não poder mais passar por baixo da catraca do ônibus.

Ah, as restrições que o desenvolvimento nos causa. Nem só de vantagens vive um jovem em crescimento. Entretanto, no geral, nessa fase, ainda estamos sob a tutela da mamãe quando saímos e se sairmos sós (os primeiros cinemas à tarde com a “tchurminha”) provavelmente papai vai deixar. Nesse época, já dá para começar a se sentir gente, ter noção de que somos sim, grosso modo, um peso orçamentário. Mesmo que não seja uma transição direta, é algo bem gradual, começa com um cobrador ou outro, mesmo assim, se argumentar ainda dá para passar, mas com a marquinha vermelha na grade do ônibus não tem conversa. Chato é que a diferença de altura nem sempre corresponde à diferença de idade, bom para os baixinhos mais atrasados.

Poder brincar nos brinquedos mais perigosos do parque.

Mesmo caso da catraca do ônibus, mesmo drama de evolução etária inconsciente com crescimento ósseo. Porém, nesse caso, os baixinhos tardios levam desvantagens, tem que fugir do mangação dos pivetes mais novos e espichados no carrossel. Ah! Como a infância era injusta!!

A primeira briga.

Os moralistas e mamães super protetoras que me perdoem, mas isso faz parte da natureza humana, assim como a mentira e a vontade de fazer putaria e de quebrar as regras de vez em quando. Quem nunca brigou quando criança? Mesmo se não tiver tido uma grande briga, talvez você tenha levado mais uma surra, ou o máximo de dano que tenha causado tenha sido uns hematomas na mão do oponente de tanto ter te socado. Brigar faz parte. Seja qual for a técnica, desde as mais avançadas como socos no fígado e chutes na cabeça aos mais desajeitados e desesperados como arranhões e puxões de cabelo passando ainda por lendários golpes como voadoras de dois pés e houndehouse kicks. Quem discorda, assista “Clube da luta”.



sexta-feira, 9 de abril de 2010

Un peut autobiographique...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mais que algumas palavras




sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Creuza, uma mulher de fibra com o coração de gelo

Pai: Cleudir, mãe: Cilene. Cleucilene veio ao mundo no início da conturbada década de 80. Por preguiça dos pais e uma vizinha mais velha com o mesmo nome, tornou-se simplesmente Creuza. Quando criança, lembra da primeira vez que seus olhos confrontaram-se com o que mais tarde tornaria-se seu consolo em momentos de solidão, fonte de sonhos e fuga da cruel realidade que a cercava, uma TV.
Era uma tarde quente na pacata Areia Branca, ela já era quase uma mocinha, a filha mais velha, do terceiro “casamento” de seu pai. O primeiro triunfo de uma sucessão de 3 abortos, culpa das doenças venéreas que seu pai adquiria constantemente em sua vida desregrada. Os braços do velho, cansado com as cordas da jangada, não mais suportavam o peso dos alqueires de feijão e farinha por isso seu pai achou que Creuza já poderia ser útil e carregar algum peso. No lombo de Quico, o meio de transporte da família de 4 que mais tarde viriam a ser 15, deixou a vila de pescadores e rumou para a feira do município. Seria a primeira vez que Creuza deparava-se com a cidade grande, seu ritmo frenético e centenas de objetos para os quais a pequena lombriguenta nem imaginava que poderia haver tantos nomes. Alguns deles eram enormes, maiores até que a jangada de seu pai, maiores até que a jangada de Buiú, a maior entre todas da pequena vila. Ela nunca havia sentido ganância, talvez nem mesmo hoje saiba o significado dessa palavras, mas pensou que poderia ter um exemplar de todos aqueles objetos. A miséria na qual vivia, porém, sempre fez com que se contentasse com pouco, sobretudo comida. Assim sendo acreditou que nunca poderia ter todos eles, mas pelo menos uma dezena daquelas maravilhas Creuza gostaria de ter.
Ao redor de um desses objetos, pessoas amontoavam-se. O sol ardia forte, atiçava ainda mais os piolhos que naquele início de Novembro pareciam ter atingido o apogeu da infestação. Curiosa com a movimentação de pessoas, Creuza pensou em verificar o que se passava, seria também uma ótima oportunidade de esfriar a moleira e os braços que a esta altura já suportavam alguns quilos de feijão verde, arroz e óleo. A iniciativa foi prontamente rechaçada com um coice de seu progenitor acompanhado de um ríspido “Avia, cabrita!”. Nuca entendera o motivo desse “cabrita”, nem de longe parecia com uma cabra. Creuza continuou caminhando mas seus olhos recusavam-se a deixar aquela aglomeração. Alguns passos mais adiante, uma oferta imperdível de guiné chamou a atenção de Seu Cleudir. Era a oportunidade pela qual Creuza estava esperando. Deixou a sombra do pai enquanto olhava constantemente de canto de olho afim de saber se este notara sua ausência. Meteu-se entre as pernas dos adultos que cercavam o grande objeto e rapidamente chegou à primeira fila.
O aparelho era caprichosamente ordenado com cabides e bombril, Creuza admirou a ornamentação por algum tempo, mais até que a imagem propriamente dita. Se um dia tivesse tantas coisas, Creuza queria ter um enfeite como aquele na sua porta para que todos vissem o quanto ela era caprichosa, ou melhor ainda, no alto de sua rede, para poder dormir olhando para o brilho cinzento que aquilo tinha. Tornou a atenção para as imagens em movimento logo abaixo dos cabides. Por algum motivo pessoas com muita roupa subiam num muro e tentavam derrubá-lo. Era um muro grande e cinza, as pessoas gritavam e dançavam forró. Pareciam estar todos felizes, não deviam gostar daquele muro, por isso fizeram um forró para derrubá-lo. Lembrou-se de algo parecido quando arrancaram um toco de mangueira que ficava perto de sua casa, todos os homens ajudaram com pás e enxadas, depois fizeram uma festa. Foi a primeira vez que ela provou cachaça, teve que fazer isso escondida pois seus pais não deixavam. Não entendia direito, se todos bebem, por que não ela? De qualquer forma, não gostou. Por algum motivo não se recordava muito bem do que se passou depois, mas lembrava muito bem que tinha um gosto amargo e queimava mais que malagueta, de uma forma estranha mas ainda assim queimava muito.
Seus pensamentos foram revirados e interrompidos por um grande cocorote que seu pai lhe dera, bem na hora que levantava o braço na tentativa de coçar a nuca ferozmente atacada pelos piolhos. O movimento dos braços mudava seu c.g. e fazia com que perdesse o equilíbrio, as lombrigas jogadas à frente serviam de contrapeso, poderia facilmente ter ficado de pé não fosse o cocorote. Seu Cleudir estava fumando numa quenga, já procurava por Creuza há alguns minutos por isso deflagara o cocorote mais potente jamais dado, “Avia, Cabrita!”. Creuza foi ao chão juntamento com os sacos e piolhos mas nem chorou, estava acostumada com as punições de seu pai, mesmo com as surras com o chicote de Quico. Recompôs-se em meio aos mais chulos xingamentos do pai, enquanto jurava a si mesma que um dia teria pelo menos uma coisa daquelas, com cabides, bombril e tudo mais. Jurou também que um dia saberia o motivo daquela festa no muro, perguntaria até mesmo a seu Buiú se necessário fosse, mas o tempo encarregou-se de minar essa curiosidade. Agora tinha que pensar como carregaria os quatro guinés que seu pai lhe arremessara na cara.
O primeiro desejo, porém, Creuza realizou. Em partes, é verdade, pois descobrira que os cabides e bombril não eram tão necessários e mudou seu gosto quanto a beleza dos mesmos. Creuza comprou sua primeira TV anos mais tarde, quando já morava numa cidade ainda maior. Longe dos cocorotes de seu pai e do chicote de Quico, Cleucilene foi trabalhar na casa de primos de Seu Buiú, gente muito boa, deram-lhe até um quarto para morar, pena que Xilito, o poodle branco e gasguito da família havia chegado primeiro. Mas deixavam até que ela ficasse com o troco do pão que comprava todas as manhãs. Depois de quase dois anos juntando esse troco, ela pode comprar a antiga TV de seus patrões. Agora era só dela, todas as 14 polegadas, só lhe faltava um botão de volume, mas quem precisa de um botão de volume quando se tem um palito de fósforo?
Através de sua Goldstar, Creuza pôde conhecer melhor o mundo, que era ainda maior que a distância entre Mossoró e Areia Branca. Acompanhava muitas novelas, filmes, só não gostava dos jornais. Além do mais, durante a madrugada, ajudava a abafar o som vindo do quarto dos patrões. Foi por causa de um filme desses que passam tarde da noite que Creuza teve que acordar e lavar seus lençóis escondida pela primeira vez. Demorou duas horas atrás da geladeira para secar. A admiração pelo mundo surreal da TV fez com que Creuza criasse muitos sonhos. O maior deles foi de viver numa outra cidade, longe dos despertar às 5:00 da manhã, dos trocos de pão e sobretudo, longe de Xilito.
Essa cidade chama-se Paris. É bem longe de Areia Branca, mais que Mossoró, na verdade é para o outro lado de Mossoró, entrando no mar, mas não é uma ilha. É tão longe que nem com uma semana de jangada com vento bom você conseguiria chegar. Só dá para ir de avião, e um daqueles bem grande mesmo.
Creuza conseguiu realizar vários de seus sonhos, até mesmo conheceu o Fábio Assunção. Com paris não foi diferente. Não me pergunte como ela chegou aqui, foi uma epopeia, com chifre de mulher em marido, envenenamento de Xilito, um malabarista de circo mal intencionado, obras de esgoto, um vizinho viado com medo de sapo e um repentista cego de um olho dentre outras coisas. Talvez num outro dia, num outro acesso de criatividade pós ressaca, numa outra aula morta eu possa contar.
O importante é saber que Creuza desembarcou em terras parisienses. Depois de algum tempo conseguiu emprego de faxineira na casa de uma velhinha os arredores de Montmartre. Mas durante um ataque cardíaco da velha Creuza, no auge de sua ignorância completa do idioma de Molière, foi incapaz de chamar uma ambulância. Logo depois do velório a família decidiu que não deixaria nada para a pobre potiguar. Isso não foi problema, seus lábios carnudos, cabelos crespos e 103cm de bunda dificilmente vistos nas terras de Sarkozy rapidamente encontraram boas oportunidades.
Ela agora ganha a vida graças a seu corpo. Nada de prostituição, Creuza é modelo viva para todo tipo de artista em Paris. Pintores, escultores e poetas, muitos artistas da colina de Montmartre fazem fila para ter algumas horas com suas curvas estonteantes. Numa dessas passadas pelo recinto boêmio e Paris, Creuza conheceu seu conterrâneo do nosso grupo, logo ficamos todos amigos. Num nobre gesto de boa vontade, ela emprestou suas formas para a nossa escultura de neve. O resultado foi esse:








Né verdade, Cet Homme?